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Opinião de Paulo Duarte sobre o Massacre de Tiananmen

Partilhamos aqui a entrevista dada por Paulo Duarte (associado do Observatório da China9 no programa 360, da RTP, no passado dia 4 de junho de 2019, acerca do Massacre de Tiananmen:

Assista aqui (minuto 54)

Ana Lourenço (AL): Três décadas depois do que se passou na praça de Tiananmen, para a maioria dos jovens chineses este é um não assunto. O que é que tem contribuído para que a memória se apague?

Paulo Duarte (PD): É não haver memória justamente. Tudo isto está ligado a uma amnésia cultural. Não se fala, na China, das atrocidades de Mao, Mao Tsé-Tung, como também não se fala deste acontecimento de Tiananmen, como também não se fala, aliás, do que se passa no Xinjiang e não digo só nada China... Nós hoje, é difícil, é difícil um chines criticar, senão mesmo diria quase impossível, tirando Hong Kong, mas Hong Kong é uma região administrativa especial da China. Mas mesmos os chineses que vivem no estrangeiro e não só, os próprios ocidentais, hoje pensam duas vezes antes de criticar a China. Porquê? Porque há muitas pressões económicas e a China é um actor de peso na esfera internacional e, portanto, os parceiros ocidentais sabem que qualquer palavra mal medida contra a China pode significar muitos milhões de euros, de dólares, num qualquer investimento com a China.

 

A forma de retaliar da China é muito bem, determinado país pode criticar a China ou receber Dalai Lama, estou a dar-lhe meros exemplos, e a China como acto de retaliação priva esse país de estabelecer contractos proveitosos do ponto de vista económico e vai, muitas vezes, para o país vizinho, onde pode ter um clima de estabilidade que lhe é propício. Penso no caso da Alemanha, ou da França, estou-me a lembrar de episódios do passado em que houve simpatia, mas ma simpatia descuidada de alguns lideres europeus face à causa tibetana, face também ao que se passa no Xinjiang e outros pontos da China.

E, portanto, hoje em dia eu diria que não só os chineses. O chinês, isto pode ser estranho o que eu digo, mas o chinês hoje tem uma liberdade pessoal que não tinha há muito tempo. O chinês, hoje, pode viajar; o chinês, hoje, escolher os seus cursos. E a prova de que pode viajar é que a classe média chinesa é superior a toda a população dos Estados Unidos e nós vemo-los aqui, em Portugal, como vemos nos outros lados da Europa.

AL: Mas não pode evocar a memória de Tiananmen. Hoje foi detido um homem que publicou no Twitter uma fotografia, uma imagem de uma garrafa de vinho que tinha a data de hoje e foi detido. O que é que faz com que as gerações de Tiananmen estão vivas ainda, é o crescimento económico que alimenta algum cinismo que permita apagar uma memória destas?

PD: Exactamente, eu ia chegar ai, a questão é esta: os manuais não falam, os livros de história não falam, os professores não fala… Portanto, permita-me voltar atrás, esta liberdade sem precedentes que se vive na China, é uma liberdade ainda assim controlada. Ou seja, o chinês é relativamente livre desde que não toque em alguns assuntos tabu. E aqui estamos a falar da autocensura, da tal linha vermelha que cada chinês tem diante de si. O chinês sabe que se falar de Tiananmen, se falar de direitos humanos, se criticar o partido, as coisas não correm bem.

Eu não sei se, mas acho que é do desconhecimento da maioria das pessoas, a China está neste momento a criar uma espécie, não é espécie, chama-se mesmo um Sistema de Crédito Social. Eu dou-lhe um exemplo, para as pessoas compreenderem o que é isto de sistema de crédito social, pensemos todos na sociedade de George Orwell, olhe por exemplo, aqui no estúdio, temos várias câmaras, acho que não poderia haver exemplo mais ilustrativo a esse respeito. A ideia da China começou em 2014, a criar um sistema que pontua e dá mérito ao bom cidadão e pune aquele cidadão que perdeu a ética social. Isto é preocupante do ponto de vista, se quiser, da liberdade pessoal, porque estamos a falar de um grande Big Brother que se está a criar na China, em que imagine Ana Lourenço, determinado chinês quer viajar, não pode, porque não pode comprar um bilhete de avião, não pode comprar um bilhete de alta velocidade, porquê? Porque está na black list. Não pode concorrer a um emprego melhor porque está numa black list, a chamada lista negra onde o futuro patrão sabe, por exemplo, que determinado chinês prevaricou, disse mal do regime, ou porque simplesmente tem dívidas.

E, portanto, está a criar-se um sistema de crédito social, pensemos aqui na carta de condução que é por pontos, mas o cidadão, neste momento, da China é também avaliado por pontos. E isto é que me preocupa, porque eu gosto da China, sou admirador da China, mas não subscrevo o modelo chinês, como não subscrevo o modelo dos Estados Unidos neste momento. Criticar a China por Tiananmen, mas depois nós hoje vermos o que é Guantánamo, ou o que é permitir-se que jovens tenham acesso a armas e depois virmos as atrocidades que é, entrar-se numa escola a dentro e matarem eles próprios os colegas, etc. Nós não podemos, quer dizer, não podemos entrar na demagogia, mas a China não é…

AL: O facto de alguns não terem mural, isso não muda a realidade de nenhum deles…