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Charles Wong, fundador do Partido Bauhinia, afirma que “Há uma enorme campanha contra a China”

Charles Wong é um dos fundadores do novo Partido Bauhinia, criado após os maiores protestos em Hong Kong, que foi buscar o nome à bauínia-blaqueana, flor também conhecida como unha-de-vaca, que é um dos símbolos do território. Em entrevista ao Expresso, responde às acusações de que Pequim viola a autonomia do território, consagrada no mote “Um País, Dois Sistemas”, e assegura que a prioridade do Bauhinia é garantir mais meio século de vigência do Segundo Sistema e recuperar a confiança da população. Wong acredita que se a cidade voltar à estabilidade por meios democráticos, o país seguirá as suas pisadas. Mas faz uma ressalva: na China a democracia é outra.

Porquê criar um partido agora?

O Bauhinia nasceu em 2020 na sequência do caos e violência em Hong Kong. Sentimos que a maioria silenciosa tinha uma palavra a dizer. Queremos formar uma plataforma política participativa, aberta a todos, que resolva os problemas da região.

Quem é essa maioria silenciosa?

A maioria das pessoas em Hong Kong não presta atenção à política. Instalou-se uma inércia na era colonial. A partir de 1997, com a Lei Básica, Hong Kong passou a ter muito mais democracia e liberdade, mas a inércia manteve-se. Não nos demos conta dos problemas que conduziram ao caos político liderado por um pequeno grupo de radicais. O alarme só soou em 2019, quando nos apercebemos de algo muito grave. Por isso, decidimos agir.

Quais as prioridades do Bauhinia?

Os protestos foram resultado de problemas graves, vindos da era colonial, da fraqueza e incompetência dos Governos de Hong Kong e dos deputados, do conluio entre os grandes empresários e o Executivo, que ignoraram as preocupações dos habitantes. Mas não queremos arranjar culpados. Todos somos responsáveis. A nossa prioridade é construir a ideia de futuro e estabilidade para recuperar a confiança da população. Aproxima-se 2047. Queremos mais 50 anos do princípio “um país, dois sistemas”.

Revê-se no rótulo de partido pró-Pequim?

Faz parte da narrativa dos media. Somos pró-Pequim na medida em que respeitamos a soberania da China, o princípio “um país, dois sistemas” e a Lei Básica, e queremos impedir que Hong Kong seja alvo de atos de sedição e violência. Se entendem por isso rotular-nos pró-Pequim, tudo bem.

O manifesto do partido refere que “melhorar o sistema democrático de Hong Kong vai não só contribuir para a estabilidade e prosperidade da região a longo prazo como vai também servir de exemplo para o desenvolvimento político democrático no continente.” Como?

Quando olhamos para as mudanças da China nos últimos 40 anos vemos as impressões digitais de Hong Kong. A China retribuiu com o princípio “um país, dois sistemas”, em 1997, em vez de reclamar Hong Kong, o que seria seu direito. Reconheceu que havia dois sistemas, um socialista que vigora no continente e outro capitalista adotado em Hong Kong. A China é muito prática e o Partido Comunista bastante pragmático. Analisa e apoia o que está bem. Se Hong Kong demonstrar que sob “um país, dois sistemas” consegue ser estável e corresponder à população, tenho a certeza de que a China não terá problemas.

Custa acreditar. Há políticos e ativistas detidos e condenados; os candidatos às próximas legislativas têm de passar pelo crivo de um comité eleitoral pró-Pequim, que vai escolher parte dos deputados; o número de lugares de eleição direta passou de 35 em 70 para 20 em 90. Parece não haver espaço para quem diverge.

Há interpretações diferentes do conceito de democracia. No oriente, está ao serviço do interesse coletivo, mais do que do interesse individual da liberdade de expressão. Temos democracia com as nossas características, como vocês têm a vossa. Ninguém tem autoridade para dizer o que deve ser a democracia.

Está a ser respeitada em Hong Kong?

Tudo o que seja feito em nome de um interesse maior é democracia, na fórmula chinesa. O que aconteceu em 2019 foi um movimento de sedição e subversão, mais focado no segundo sistema do que no país. Hong Kong é parte da China, caso se tenham esquecido. O que aconteceu jamais aconteceria sob a administração britânica. Quando a China impôs medidas, como a Lei de Segurança Nacional, foi para acabar com a violência. Fez um favor a Hong Kong, que desde então está bastante estável. As medidas que menciona têm como objetivo garantir que a região é liderada por patriotas. A ideia de “um homem, um voto”, enraizada no Ocidente, pode não ser a melhor para Hong Kong.

É uma nova interpretação do conceito de democracia.

O princípio “Um homem, um voto” é apenas uma das muitas interpretações e a maioria dos países não o aplica. Nos Estados Unidos o Presidente é eleito por 46% da população, uma minoria.

Referiu que o problema era a inércia da maioria silenciosa. Porquê mudar o sistema?

O colégio eleitoral passou de 1200 membros para 1500. Continuaremos a ter eleições diretas com base no princípio “um homem, um voto”. O Parlamento aumentou de 70 para 90 deputados, dos quais 20 eleitos diretamente, 30 de forma indireta e 40 pelo colégio eleitoral. Se olharmos para o resto do mundo, o princípio “um homem, um voto” pode ser bastante manipulável e prejudicial. Em Hong Kong, diria mesmo na Ásia, preferimos estabilidade e acabamos por chegar ao modelo misto. Não digo que seja o fim. É uma experiência. Se não funcionar, altera-se de novo. O que importa é a que as pessoas continuem a viver felizes, possam alimentar as famílias, tenham emprego, saúde, habitação e educação. Isso é bastante mais importante do que o conceito vago de democracia.

O princípio “Hong Kong governado pelas suas gentes”, inscrito na Lei Básica, foi substituído por “Hong Kong governado por patriotas”. Falta patriotismo à região?

Acho que a maioria é patriota, mas ficaria admirada com o número de pessoas que simplesmente não aceita que Hong Kong faz parte da China. O Governo exigiu aos funcionários públicos que fizessem um juramento patriótico. Centenas recusaram. Pergunto porquê. Metade da população tem dois passaportes, é uma cidade extremamente internacional, mas é parte da China. Para assegurar que isso é respeitado e evitar cenas ridículas como as de 2019, a região tem de ser governada por patriotas.

Sobre os protestos de 2019 usou palavras como radicais, violência, sedição e apelo à independência, o que contrasta com o que vimos: uma maioria que pedia responsabilidades ao Governo de forma pacífica e sem intenções independentistas. Um dos protestos juntou cerca de dois milhões numa população de sete.

Discordamos dos números. Segundo dados oficiais, estava longe dos dois milhões. Seria fisicamente impossível. Houve pessoas que se manifestaram de forma pacífica, mas houve radicais que testaram os limites. Democracia e liberdade não se compadecem com violência. Os visados não foram detidos e condenados por participarem nos protestos, mas por suspeitas dos crimes de sedição, subversão e conluio com forças estrangeiras. Há uma grande diferença.

Martin Lee e Margaret Ng fazem parte do grupo de condenados.

Contribuíram muito para Hong Kong, mas isso não os iliba de terem cometido um crime, e é assim em todo o mundo. Admiramos muito estas pessoas, mas tocaram em pontos que não deviam. Os tempos mudaram. Temos das melhores justiças do mundo, deixemos os tribunais julgá-los.

Como avalia a resposta do Governo aos protestos?

Não foi muito eficaz, caso contrário Pequim nunca teria intervindo. A China foi justa. O Governo não soube responder, mas não podemos culpá-lo. Resolver problemas nunca esteve no seu ADN. Para dar exemplo da ausência de estratégia, Shenzhen quer duplicar o PIB em 2037. Gostava de saber se alguém em Hong Kong pensou o que deve ser a cidade nessa altura.

E no que respeita a Pequim, a Lei de Segurança Nacional era a solução?

Pequim quis pôr travão à violência e criar o ambiente propício para Hong Kong encontrar soluções. A disparidade e a ausência de mobilidade sociais, a habitação e a falta de oportunidades para os jovens são problemas que têm de ser resolvidos pelas pessoas de Hong Kong. Não é trabalho da China, que leva o princípio da não-intervenção muito a sério e respeita que Hong Kong seja governado pelas suas gentes. Contudo, quer assegurar que a cidade se mantém sob o princípio “um país, dois sistemas” e que os elementos de sedição desaparecem.

Parte da comunidade internacional defende que Pequim não o cumpre.

Não identifico um ato que tenha afetado o princípio “um país, dois sistemas”, a democracia ou a liberdade desde a transição. É uma questão de perceção. A China não enviou mais um soldado para Hong Kong, não há sequer um ramo do Partido [Comunista Chinês] aqui. É injusto falar-se da Lei de Segurança Nacional como ataque à autonomia, quando todos os países têm uma. Está prevista no artigo 23 da Lei Básica. Se existisse em 2019, os protestos nunca teriam acontecido. Vivo aqui e estão a dizer-me que tenho menos democracia e liberdade? É ridículo. Há uma enorme campanha contra a China. A China ajuda no combate à covid noutros países - é manipulação diplomática. Tenta defender o território no Mar do Sul da China - é invasão. Exporta produtos e bens para o Ocidente - está a roubar empregos. Há um enorme sentimento anti-China.

Porquê?

Mal-entendidos, medo da ascensão de um novo país e da alteração da ordem mundial. A China é o que é e nunca fez nada desfavorável ao mundo. Tirou 1400 milhões de pessoas da pobreza, combateu as mudanças climáticas, ajudou o mundo na crise financeira de 2008. Deixemos que a História faça justiça.

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