ptzh-CNen

China aposta na produção vinícola para combater pobreza e desertificação dos solos

No remoto oeste chinês, o verde de vinhas recentemente cultivadas contrasta com planaltos semiáridos, interrompidos por cadeias montanhosas, num invulgar cenário que ilustra a ambição da China em tornar-se uma produtora vinícola de referência mundial.

Christelle Chene, embaixadora da marca Xige, uma das maiores quintas vinícolas da região autónoma de Ningxia, disse que “o potencial para a produção doméstica é enorme. É um mercado novo, mas nos últimos dez anos o consumo aumentou consecutivamente. A tendência entre a população jovem de consumir mais vinho é óbvia.”

Embora apenas cerca de 3% da população chinesa beba regularmente vinho, a China é já o quinto maior mercado do mundo, devido à sua dimensão populacional,1,4 mil milhões de habitantes.

O país está também a alargar rapidamente a produção doméstica, que conta já com a segunda maior área de cultivo do mundo, ultrapassada apenas por Espanha. A indústria insere-se nos planos de Pequim de erradicar a pobreza no interior do país e competir nos setores de alto valor agregado.

Jim Boyce, autor do blog “Grape Wall of China”, e que há mais de dez anos segue a indústria vinícola chinesa, diz que “há muitas dinâmicas em jogo. Não se trata apenas de vinho. Trata-se de travar a desertificação, num país muito populoso, e reduzir as disparidades entre os rendimentos no litoral e no interior, ao agregar uma safra com valor acrescentado.”

Situada 1.000 metros acima do nível do mar, Ningxia está na vanguarda desta transformação. A região soma já 200 quintas vinícolas, a maioria no sopé oriental das montanhas Helan.

Quando Jim Boyce criou o seu blog, as pessoas “faziam piadas” sobre os vinhos chineses, mas, hoje, como apontou, “quase que tens que visitar Ningxia se queres ser um profissional de vinho a sério.”

Em 2019, sete vinhos chineses arrecadaram medalhas de ouro no Decanter World Wine Awards, a maior competição de vinhos do mundo. Entre estes, seis são produzidos em Ningxia.

O fornecimento de água para os terrenos semiáridos de Ningxia é garantido por um programa de irrigação que extrai diretamente do rio Amarelo.

Zhao Shihua, especialista em vinhos do governo local, explica que “existem condições aqui para produzir vinho de classe mundial. A exposição solar é ótima e a diferença de temperatura entre o dia e a noite é grande. A uva plantada aqui possui um aroma rico e a estrutura do vinho tem um forte senso de equilíbrio.”

A casta internacional Cabernet Sauvignon compõe 70% das variedades usadas em Ningxia, seguida pela uva Merlot.

A falta de maturidade do mercado chinês permite aos fornecedores praticar altas margens de lucro, mas as quintas vinícolas enfrentam desafios, como recuperar o forte investimento inicial e construir uma marca de raiz.

Christelle Chene descreveu que “por ser um mercado novo, a China permite praticar margens bastante elevadas, mas também exige tempo e dinheiro para construir uma marca.”

Os vinhos chineses são os mais novos entre os vinhos do novo mundo, um termo usado para descrever vinhos que não são cultivados em regiões tradicionais como Portugal, Itália ou França.

Em Xige, o aço inoxidável dos tanques de fermentação reluz, imaculado, atestando a juventude desta quinta vinícola.

“Até há menos de três anos, não havia nada aqui a não ser terra árida. Ainda estamos a arcar e vamos arcar nos próximos 30 anos com os custos de construir a vinícola e plantar a videira. A maioria dos outros países que produzem vinho fazem-no há 100 anos”, descreveu Chene.

RTP