Entre Pequim, Macau e Sanya: diplomacia projeção externa e o novo papel do desporto

2026-04-13

Autor: Manuel Silvério

Fonte: Ponto Final, 13 de abril de 2026, p. 3

 

A visita do presidente da Assembleia da República portuguesa à China e a Macau insere-se numa sequência de sinais políticos, económicos e simbólicos através dos quais Pequim procura projetar estabilidade, abertura e continuidade num tempo de incerteza internacional. A visita oficial do presidente da Assembleia da República portuguesa, José Pedro Aguiar-Branco, a Pequim e a Macau oferece um ponto de observação particularmente claro sobre o momento que a China procura construir e projetar. Não se trata apenas de um episódio protocolar nas relações entre Portugal e a China. Pelo contrário, esta deslocação insere-se numa sequência mais ampla de sinais políticos, diplomáticos en económicos que, lidos em conjunto, sugerem uma estratégia de reforço do diálogo externo, de valorização de plataformas de ligação como Macau e de afirmação de uma imagem de estabilidade num contexto internacional cada vez mais incerto.  

 

Num espaço de poucos dias, acumulam-se sinais difíceis de ignorar. O encontro em Pequim entre Xi Jinping e Cheng Liwun, figura destacada do Kuomintang, principal partido da oposição em Taiwan, a deslocação de Wang Yi à Coreia do Norte, a intensificação do trabalho de Xia Baolong na Grande Baía, a visita do presidente da Assembleia da República portuguesa

à China e a Macau, a realização dos Jogos Asiáticos de Praia em Sanya, entre 22 e 30 de abril, e a perspetiva de uma cimeira entre Xi Jinping e Donald Trump, prevista para maio em Pequim, compõem uma sequência reveladora. Já num plano mais vasto, seguir-se-á o Mundial de Futebol de 2026 nos Estados Unidos. Tudo isto ocorre num momento em que o Estreito de Hormuz voltou a expor a vulnerabilidade do sistema internacional e a fragilidade de equilíbrios que, à primeira vista, poderiam parecer mais sólidos. 

 

Considerados isoladamente, estes desenvolvimentos podem parecer dispersos. Em conjunto, contudo, apontam para uma mesma direção: a tentativa de reforçar estabilidade e coordenação no espaço asiático, ao mesmo tempo que se mantêm abertos vários canais de interlocução política, económica e institucional com o exterior.

 

A situação em torno do Estreito de Hormuz ajuda a compreender esta necessidade. Mais do que uma questão energética, trata se de um ponto crítico com impacto direto

nos fluxos comerciais, nas cadeias de abastecimento, nos preços e na confiança dos mercados. Ao mesmo tempo, evidencia os limites de coordenação entre diferentes

atores internacionais e recorda até que ponto a previsibilidade passou a ser, ela própria, um ativo político.

 

É neste contexto que a China parece privilegiar uma abordagem assente em dois eixos complementares: reduzir riscos no seu entorno imediato e projetar, para fora, uma imagem de continuidade, capacidade de organização e abertura controlada. 

 

O contacto com representantes de Taiwan não altera as posições de fundo, mas mostra a importância atribuída ao canal político. A visita à Coreia do Norte contribui para preservar estabilidade na península coreana. O trabalho em torno da Grande Baía reforça, por sua vez, uma tendência clara de integração económica e funcional, envolvendo Hong Kong e Macau num modelo mais diversificado, mais ligado à inovação e menos dependente das suas bases tradicionais. 

 

É precisamente neste quadro que a visita de José Pedro Aguiar-Branco assume relevância acrescida. Em Pequim, a sua presença confirma que, em paralelo com as tensões estratégicas globais, a China continua a investir na manutenção e no aprofundamento de contactos com parceiros europeus. E fá-lo não apenas através dos governos, mas também por via parlamentar e institucional, alargando assim os níveis de interlocução e reforçando a densidade diplomática das relações externas. 

 

Essa dimensão merece ser sublinhada. A diplomacia contemporânea já não se faz apenas por via executiva, através de governos, cimeiras e tratados. Fazse também através das instituições representativas, da presença política e da capacidade de transformar encontros formais em sinais de confiança, continuidade e reconhecimento mútuo. Durante o almoço com a comunidade portuguesa no Clube Militar, José Pedro Aguiar-Branco introduziu uma ideia relevante: a de que a responsabilidade internacional de um Estado é hoje partilhada por vários níveis de representação. Ao assumir que o parlamento pode contribuir para a projeção externa do país e para a afirmação do nome de Portugal, sublinhou que essa responsabilidade não se esgota na ação governativa, mas envolve igualmente as instituições representativas. 

 

A passagem por Macau deu à visita uma densidade adicional. Para além da componente institucional, marcada pelo encontro com o Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, ficou evidente o peso simbólico e político que a região continua a ter como espaço de ligação entre Portugal e a China. No encontro com a comunidade portuguesa, José Pedro Aguiar-Branco descreveu Macau como um “farol genuíno”, expressão particularmente feliz para traduzir a singularidade persistente da região. Mais do que uma evocação histórica, a frase contém uma leitura política e cultural: Macau continua a ser um espaço de ligação entre mundos distintos, onde memória, língua, direito e experiência institucional conservam um valor concreto no presente.

 

Essa leitura merece atenção. Num momento em que Macau procura afirmar se no contexto da Grande Baía, enquanto diversifica a sua base económica e reforça a sua inserção regional, este tipo de reconhecimento ajuda a consolidar a sua projeção externa. Não se trata apenas de reconhecer o passado, mas de compreender a utilidade contemporânea da região enquanto ponto de encontro, plataforma de contacto e lugar onde diferentes referências continuam a poder dialogar. O próprio caráter pioneiro da visita reforça essa interpretação. 

Esta dinâmica não se limita, aliás, à relação entre Portugal e a China. Em paralelo, Pequim tem mantido uma agenda diplomática particularmente ativa com vários parceiros europeus. A visita oficial do primeiro-ministro português, Luís Montenegro, a Pequim e Macau, em setembro do ano passado, a deslocação o presidente da Assembleia da República portuguesa à China e a Macau, a visita do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, a Pequim, e a adiada e agora anunciada deslocação do Chefe do Executivo da RAEM a Portugal e Espanha na próxima semana compõem uma sequência que merece ser lida no seu conjunto. Mais do que episódios avulsos, estes movimentos apontam para a continuidade de canais políticos e institucionais entre a China, a Europa e Macau, num momento em que a diversificação das relações externas e a estabilidade do diálogo assumem particular importância.

 

É neste enquadramento mais vasto que os Jogos Asiáticos de Praia em Sanya ganham um significado que ultrapassa claramente o desporto. Não há indícios de que tenham sido concebidos especificamente para este momento. No entanto, a sua realização nesta conjuntura contribui para projetar uma imagem de organização, abertura e normalidade, qualidades que adquirem peso acrescido num cenário internacional volátil.

 

Mais do que um evento competitivo, os jogos oferecem a Hainan uma oportunidade concreta para reforçar a sua projeção externa e acelerar a sua afirmação como espaço de abertura económica. Sanya, e de forma mais ampla Hainan, surge hoje como um dos territórios onde a China procura testar e aprofundar novas formas de ligação ao exterior. A aposta no porto de comércio livre, na atração de investimento, nos serviços, na inovação tecnológica, no turismo de qualidade e em novas oportunidades de cooperação internacional confere aos jogos um valor que ultrapassa claramente o plano desportivo.

 

Ao acolher este evento, Hainan não mostra apenas capacidade organizativa. Apresenta-se ao mundo como plataforma de oportunidades, de experimentação económica e de abertura a novas dinâmicas de desenvolvimento. Nesse sentido, o desporto torna-se parte de uma linguagem mais ampla, em que projeção externa, economia e imagem política se reforçam mutuamente.

 

Pouco depois, o centro da atenção internacional deslocar-se-á para os Estados Unidos, com a realização do Mundial de Futebol de 2026. Tal como no caso de Sanya, o desporto assume aqui uma dimensão que ultrapassa a competição, contribuindo para projetar capacidade organizativa, influência e alcance global. Entre estes dois momentos, é possível identificar uma leitura comum: a dos grandes eventos como instrumentos de afirmação num tempo em que a perceção de estabilidade e confiança se tornou um ativo político.

 

Para Macau, esta realidade tem uma relevância particular. A integração na Grande Baía, a diversificação económica, o reforço das ligações regionais e a permanência do seu valor simbólico e institucional colocam a região num ponto singular deste processo. O desporto pode aí desempenhar um papel complementar, mas a visita de José Pedro Aguiar-Branco recorda que Macau continua também a ter importância como espaço de representação, de memória e de ligação entre interlocutores que, por diferentes razões, continuam a precisar uns dos outros.

 

Talvez por isso faça sentido voltar a pensar também na capacidade da RAEM para acolher, no futuro, grandes momentos de diplomacia desportiva. Em 2002, foi possível trazer a seleção principal de Portugal a Macau para um estágio e para um jogo amigável com a seleção chinesa. Essa experiência mostrou que o território tem condições, memória e vocação para voltar a receber grandes figuras do desporto português, reforçando por essa

via a sua projeção externa e a sua ligação privilegiada ao mundo lusófono e à China. Os acontecimentos recentes mostram que o contexto internacional atual exige novas formas de leitura. Mais do que ações isoladas, são as sequências, os sinais e o seu enquadramento que ajudam a compreender a evolução em curso.

 

Neste sentido, os grandes eventos desportivos deixam de ser apenas momentos de competição ou celebração. Tornam-se também sinais do tempo em que vivemos: um tempo em que economia, política, diplomacia, imagem externa e relações internacionais se cruzam de forma cada vez mais evidente. E a visita do presidente da Assembleia da República portuguesa a Pequim e a Macau, justamente por ocorrer neste momento, ajuda a ler com maior nitidez esse cruzamento.

 

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