Autor: Carolina Baltazar
Fonte: Ponto Final, 13 de abril de 2026, p. 5
O Chefe do Executivo inicia este sábado uma visita oficial a Lisboa, naquela que será a sua primeira deslocação a Portugal. Em entrevista à TDM, o governante revelou que a viagem europeia passa também por Espanha, Genebra e Bruxelas e revelou que a delegação vai incluir cerca de 120 empresários e mais de 20 empresas da Grande Baía e do interior da China.
A visita oficial do Chefe do Executivo da RAEM a Lisboa arranca este sábado, 18 de Abril, seguindo-se passagens por outros países europeus e encontros com dirigentes da União Europeia.
Em entrevista à TDM, Sam Hou Fai revelou alguns dos pontos em destaque na agenda europeia e reafirmou a intenção de fortificar os laços com os países de língua portuguesa (e, cada vez mais, os de língua espanhola) em diversos domínios, desde a economia à educação.
O início da viagem a Portugal será celebrado com uma exposição de fotografia dedicada aos resultados do princípio “um país, dois sistemas”, segundo adianta Sam Hou Fai. O evento contará com a participação de “várias personalidades que contribuíram para o sucesso do regresso de Macau à pátria” e incluirá a exibição de um vídeo com entrevistas a alguns destes representantes, que partilharão testemunhos de momentos históricos e perspectivas para o futuro. O objectivo desta iniciativa é o de “dar continuidade à amizade entre a China e Portugal”, afirmou o Chefe do Executivo à estação. Em paralelo, o governante irá ainda encontrar-se com estudantes universitários de Macau que se encontram a estudar em Portugal, de forma a incentivá- los a “esforçarem-se nos seus estudos”.
Entre os objectivos gerais de aproximação entre o mundo lusófono e Macau, destacam- se duas vertentes em particular: a cooperação económica e comercial e a cooperação judiciária. Quanto ao primeiro ponto, Sam Hou Fai revelou que a visita vai mobilizar cerca de 120 empresários e incluir múltiplas empresas de Macau e de Hengqin, para além de mais de duas dezenas de “empresas de renome” da Grande Baía e do interior da China. Como resultado, prevê-se a assinatura de “mais de 39 protocolos com entidades ou empresas” portuguesas, pertencentes aos mais variados domínios: “o comércio e a economia, a plataforma sino-portuguesa, a educação, a cultura, o turismo, a formação de quadros qualificados, a ‘big health’ e a tecnologia de ponta”.
No que respeita à cooperação judiciária, Sam Hou Fai notou que o contributo dos juízes portugueses tem sido “importante” para o bom funcionamento dos tribunais de Macau desde a transferência da soberania do território – e, mais concretamente, desde a assinatura do Acordo de Cooperação Jurídica e Judiciária entre ambas as partes, em 2001.
O Chefe do Executivo lembrou também que no passado mês de Março o Conselho Superior da Magistratura (CSM) de Portugal deu início ao recrutamento de dois juízes portugueses para exercer funções nos tribunais de primeira instância de Macau, processo que está “a decorrer de forma ordenada”. Recorde-se que, actualmente, o único juiz português a trabalhar em Macau é Jerónimo Alberto Gonçalves Santos. Questionado sobre o papel da comunidade portuguesa em Macau, o líder do Governo afirmou categoricamente que esta “constitui uma parte integrante da RAEM” e garantiu que o Executivo continuará dar “grande importância e a prestar apoio” ao seu desenvolvimento.
Mencionou, neste âmbito, medidas como a protecção dos interesses dos residentes de ascendência portuguesa e o respeito pelos seus costumes e tradições culturais, para além da promoção da língua portuguesa através da realização de cursos nas escolas locais, da elaboração de material didático, do financiamento da Escola Portuguesa de Macau (EPM) e, ainda, da criação de bolsas de estudo e subsídios para os estudantes que optem por prosseguir os seus estudos académicos em Portugal. No plano cultural, o governante mencionou a inclusão de manifestações de origem portuguesa na lista do património cultural intangível de Macau (como a dança folclórica ou o Arraial de São João, para citar apenas dois), a organização anual da festa da lusofonia e as celebrações do Dia de Portugal e de Camões, a 10 de Junho, sem esquecer o apoio atribuído à Casa de Portugal em Macau e ao Instituto Português do Oriente (IPOR).
BRASIL E PAÍSES DE LÍNGUA ESPANHOLA NO HORIZONTE
A intenção de estreitar o intercâmbio com o mundo lusófono não se cinge a Portugal, abrangendo outros países de língua oficial portuguesa – com grande destaque para o Brasil, país com o qual a China mantém “estreitas relações diplomáticas e comerciais”. Sam Hou Fai frisou que a cooperação entre a região de Macau e o país sul-americano “está continuamente a ser reforçada”, sendo que o Fórum para a Cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa tem sido um elemento fundamental para manter a comunicação entre as duas Partes.
De acordo com o Chefe do Executivo, vários medicamentos de medicina tradicional chinesa registados em Macau já entraram com sucesso no mercado brasileiro, esperando-se que “mais empresas do interior da China possam aderir ao mercado brasileiro através da plataforma de Macau” e que a cooperação passe também a estender-se às áreas da tecnologia e inovação ou da cultura e turismo, por exemplo.
Foram ainda abordadas na entrevista as outras paragens desta digressão europeia, que no dia 21 segue para Madrid. Sam Hou Fai reconhece que a “base” sólida dos contactos entre a China e os países de língua portuguesa constitui um incentivo para “expandir a função de plataforma para o mercado de língua espanhola”. Como explica o governante, “tanto Espanha como Macau são destinos turísticos de renome a nível internacional e ambos têm um grande espaço de cooperação na área do turismo”, motivo pelo qual será organizada “uma grande campanha de promoção turística em Madrid” e agendada uma reunião com a secretária-geral da Organização Mundial do Turismo da ONU.
De acordo com as declarações de Sam Hou Fai, vários empresários de Macau e do interior da China vão acompanhar a visita e explorar “o mercado espanhol e da União Europeia”, prevendo-se que estes contactos resultem na assinatura de “cerca de dez protocolos”. E importa referir que o mercado espanhol não se limita a Espanha: “A população total de todos os países de língua espanhola é de aproximadamente 600 milhões”, sublinha o Chefe do Executivo, adiantando que este “mercado de grande potencial” será explorado “de forma faseada”.
A deslocação de Sam Hou Fai à Europa inclui ainda passagens por Genebra e Bruxelas. Em Genebra, descrita como “uma janela importante para Macau”, está previsto um encontro com responsáveis da Organização Mundial do Comércio, ao passo que a visita a Bruxelas incluirá contactos com os dirigentes da sede da União Europeia. “O Governo da RAEM dá elevada importância à criação de laços com a União Europeia”, realçou o líder do Executivo.
Sam Hou Fai concluiu a entrevista com uma mensagem dirigida aos espectadores e ouvintes, em que reiterou os seus objectivos políticos e a importância da manutenção das relações sino-lusófonas. “Quando apresentei o meu programa político, salientei que iria reforçar a função de Macau enquanto plataforma em direcção a Portugal”, lembrou, explicando que a visita à Europa significa um “passo importante” para a materialização desses objectivos.
“O Governo da RAEM vai reforçar proactivamente a cooperação e o intercâmbio com o exterior e aproveitar da melhor forma as vantagens únicas de Macau, de modo a ampliar o seu espaço de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, dar um maior contributo ao fortalecimento das relações de amizade entre a China e Portugal, servindo assim a conjuntura global do desenvolvimento nacional”, finalizou.