A longa marcha da classe média

2026-04-10

Texto publicado na revista visão (9 de abril de 2026) da autoria de António Caeiro.

 

O primeiro artigo da Constituição chinesa, em vigor há 44 anos, é taxativo: "A República Popular da China é um Esta-do socialista sob a ditadura democrática do povo, liderado pela classe trabalhadora e assente na aliança operário--camponesa." A frase confirma os pergaminhos revolucionários do regime, mas, socialmente, o pais mudou muito e, entre tanto, emergiu uma nova classe.

 

"A classe média chinesa emergiu como a força condutora da politica de desenvolvimento da China e está a tornar-se o maior grupo de consumidores que o mundo já viu, escreveu em 2016 Li Cheng, autor de mais de uma dezena de estudos sobre a politica interna chinesa. "O crescimento da classe média trouxe com ele crescente influència política e a liderança do Partido Comunista Chinês acabou gradualmente por reconhecer que para manter o poder devia respeitar a classe média"

 

Aquele académico vivia então nos EUA. onde se formou em Ciências Políticas. Durante 13 anos trabalhou num influente think tank, o Brooklins Institution, onde dirigiu o respetivo Centro de Estudos sobre a Chi-na. Como centenas de outros académicos. chineses radicados nos EUA fizeram nos últimos anos, em 2023 regressou à China, atraído pelas novas oportunidades do país. E agora professor na Universidade de Hong Kong.

 

Na semana passada, num fórum interna-cional na ilha de Hainan, afirmou que "nos próximos anos, os EUA deverão permanecer atolados em conflitos autoinfligidos". Segundo o relato do jornal South Chi-na Morning Post, Li Cheng salientou que "enquanto na Europa e nos EUA as classes médias estão a diminuir, na Ásia, incluindo na China, estão a aumentar".

 

Pelos critérios estabelecidos no 14ª Plano Quinquenal (2021-2025), para um casal com um filho, o estatuto de classe média correspondia a um rendimento anual entre 100 000 yuan (12 500 euros) e 500.000 yuan (62 500 euros). Segundo as estimativas do governo, em 2025 mais de 400 milhões de chineses já pertenciam à classe média e dentro de uma década o número atingirá os 800 milhões.

 

Capital económica da China, com cerca de 30 milhões de habitantes, Xangai é con-siderada "o berço da nova classe media". Ha duas décadas apurou Li Cheng, 82%

 

das familias da cidade já eram proprietá das casas onde viviam e 22% tinham até duas casas. Na primavera de 2022, duran te os dois meses de drastico confinatien-to imposto pela política de Covid-zero o chefe dos serviços de saúde mental do municipio pediu à população para "re-primir o seu anseio por liberdade". Zuou (Liberdade, em chines) foi também o que centenas de manifestantes reclamarath no outono seguinte nas ruas de Xangai, Peque é outras cidades, e que forçaram o governo a mudar subitamente a sua atuação. Não fok uma revolucão, palavra de conotações m pouco assustadoras. Han Han, tum escritor e corredor de automóveis, nascido em 1982 ia tinha falado sobre isso por ocasião das primaveras árabes: "Revolucão e democra cia são duas coisas completamente dife. rentes. Não há nenhuma garantia de me a revolucão traga democracia (1) so podemos avançar um pequeno passo de cada vez () Reforma é a melhor resposta."

 

Constitucionalmente, as empresas públ cas ("propriedade de todo o povo", segundo a terminologia oficial) são "o setor dirigente da economia nacional" e o setor privado é "uma componente importante da econo mia de mercado socialista". A avaliar pelas estatísticas oficiais, a ordem devia ser ao contrário: "Principal motor de inovação e transição verde da China, as empresas pri vadas asseguram 80% dos novos empre gos criados nas zonas urbanas, 56,8% do comércio externo e 60% do PIB

 

Em 1972, quando Richard Nixon se en controu em Pequim com Mao Tse-Tung, to dos os chineses pareciam igualitariamente pobres. Os empresários eram "inimigos de classe. Com quase um quarto da população mundial, a China representava menos de 2% do PIB global (hoje ronda os 18%)

 

Cerca de 40 anos depois da histórica viagem de Nixon, um coronel do Exército chinës. Liu Mingfu, publicou um livro com um titulo que viria a tornar-se uma bandeira da Era Xi Jinping: O Sonho da China O subtítulo da obra é um sinal dos tempos: Pensamento de Grande Potência e Postura Estratégica na Era Pós-Americana. A China já era a segunda maior economia do planeta, à frente do Japão e da Alemanha, e dentro de poucos anos poderá ser a primeira. Um pesadelo para a América, diria o coronel Liu: "Os EUA não têm medo de uma China socialista, têm medo de uma China forte."

 

 

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