Autor: Lusa
Fonte: Ponto Final, 13 de abril de 2026, p. 4
José Pedro Aguiar- -Branco, presidente da Assembleia da República de Portugal, afirmou, após a visita de dois dias a Macau, que ficou com “um pensamento construtivo” sobre o que pode ainda ser desenvolvido para aproveitar o território como plataforma entre a China e os países de língua portuguesa. Questionado pela Lusa sobre como tem sido aproveitada esta plataforma por Lisboa e se há mais a fazer, José Pedro Aguiar-Branco notou que “são diversas as áreas em que ela se pode reflectir, quer na dimensão comercial, cultural, desportiva (…) e do direito”.
“Temos uma visão de balanço em relação aos anos que a Declaração Conjunta já tem, em relação àquilo que foi feito, e do que no futuro” se possa fazer, disse aos jornalistas o responsável.
O líder da AR esteve em Macauna sexta-feira e no sábado, com uma delegação que integra os deputados do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-China Hugo Carneiro (PSD), Paulo Núncio (CDS-PP), Edite Estrela (PS), Felicidade Vital (Chega) e Paula Santos (PCP), depois de ter passado por Pequim e Xangai.
“Portanto, diria, um pensamento construtivo, um pensamento positivo naquilo que temos que fazer e é com esse espírito que nós, enquanto deputados da Assembleia da República, prosseguimos também neste balanço que fazemos da nossa visita”, indicou.
Na sexta-feira, primeiro dia em Macau, Aguiar-Branco visitou a Exposição Internacional de Turismo, reuniu-se com o Chefe do Executivo da RAEN, Sam Hou Fai, o presidente da Assembleia Legislativa, André Cheong, e passou ainda pela Escola Portuguesa de Macau.
O político português fez um “balanço muito positivo” da visita, quer com as entidades oficiais, quer com instituições como a Santa Casa da Misericórdia, onde testemunhou “uma obra importantíssima, secular”.
“Saio com um reforço da importância que significa Macau nas relações entre Portugal e a República Popular da China”, resumiu aos jornalistas.
Na Santa Casa da Misericórdia de Macau, o responsável agradeceu o apoio dado às vítimas da depressão Kristin a instituição em Macau fez um donativo no valor de 300 mil euros à União das Misericórdias Portuguesas.
“Isto significa que a expressão da solidariedade atravessa os milhares de quilómetros que fisicamente nos separam, mas não separam nos valores”, disse o líderdo parlamento português ao provedor da Santa Casa, António José de Freitas.
Aguiar-Branco foi o primeiro presidente da Assembleia da República de Portugal a visitar Macau.
Depois de uma breve passagem pelas Ruínas de São Paulo e pela Livraria Portuguesa,
no centro histórico de Macau, a delegação parlamentar, acompanhada do embaixador em Pequim, Manuel Cansado de Carvalho, e do cônsul-geral em Macau, Alexandre Leitão, reuniu-se à porta fechada com membros da comunidade jurídica portuguesa local.
Sobre a reunião, Aguiar-Branco disse apenas que “o objectivo foi ouvir” a comunidade e que deixa Macau “com informação importante para poder colocar à Comissão Mista, que tem como função ir resolvendo e aprofundando os temas que sejam necessários resolver para que essa relação seja melhor”. “É essa riqueza de informação que levamos e poderemos também, enquanto Assembleia da República, fazer o nosso papel de acompanhamento e fiscalização também da actividade do Governo nesta matéria, da acção externa”.
A sétima reunião da Comissão Mista Portugal-Macau, a primeira desde 2019, antes da pandemia de covid-19, está prevista para este mês em Lisboa. Vai contar com a presença do Chefe do Executivo da RAEM, que está em Portugal a partir de 17 de Abril.
DESTACADO PAPEL DE MACAU NA “APROXIMAÇÃO” PORTUGAL-CHINA
O presidente da Assembleia da República destacou o papel estratégico da região na “aproximação cultural e política” entre Portugal e a China.
Questionado sobre o balanço dos encontros com Sam Hou Fai e André Cheong, Aguiar-Branco assinalou tratar-se de uma deslocação “com características únicas, oficiais”, de uma delegação que inclui representantes de cinco grupos parlamentares e, pela primeira vez, com reuniões em Pequim, Xangai e Macau.
“Isso significa um grande sentimento uniforme da forma como vemos a relação entre Portugal e a República Popular da China e também em particular nesta dimensão aqui na região administrativa de Macau, que é uma plataforma estratégica no que respeita a esta relação”, apontou.
Ao mesmo tempo, a segunda figura do Estado português considerou que os encontros em Macau expressam “uma confiança e um olhar não só para o passado, mas também para o futuro” e para as “oportunidades que acreditamos que vão ser desenvolvidas” e o papel do Parlamento português é acompanhar e “contribuir positivamente” para o reforço das relações bilaterais entre Portugal e a China.
“O nosso trabalho parlamentar é um trabalho de acompanhamento do que é feito pelo Governo em termos de acção externa do Estado português, mas temos a obrigação de contribuir positivamente para que essa relação, no caso concreto, com a República Popular da China, e com o papel fundamental que é desenvolvido aqui em Macau, aconteça para benefício de ambos os países e de ambos os povos”, afirmou.
DEPUTADOS PORTUGUESES DEFENDEM PARCERIA
Os deputados portugueses que seguiam na comitiva defenderam, em declarações à Lusa em Macau, que “num mundo de grande incerteza”, Portugal deve “ter em conta” o parceiro chinês.
“Nestes tempos bastante sombrios, em que a guerra voltou à Europa e em que temos também num parceiro tradicional, como eram os Estados Unidos, uma grande instabilidade, acho que a China é uma referência de estabilidade”, disse à Lusa a deputada Edite Estrela.
“Estamos a viver num mundo de grande incerteza e o que é importante é que na China não há instabilidade”, reforçou a histórica do PS. “Não quero com isto dizer que a China deve ser um parceiro privilegiado, digo que tem de ser tido em conta”, continuou a deputada, em declarações à Lusa num passeio com a comitiva pelo centro histórico de Macau.
No mesmo sentido, notando que Pequim é um “’player’mundial” que não “pode ser desprezado”, a deputada do Chega afirmou que a visita de Aguiar-Branco ao país asiático “é um sinal de que Portugal está atento”. “Deveremos atrair todo o investimento que traga benefícios para os portugueses e para o país. Por essa razão, penso que estas relações com a China são importantes”, indicou Felicidade Vital. Hugo Carneiro, presidente do Grupo Parlamentar de Amizade Portugal-China, declarou à Lusa que a visita do líder da AR foi “muito oportuna” e sublinhou as “relações históricas com a China”.
“Essas relações são firmadas e comprovadas ao longo dos tempos pela interacção dos vários agentes culturais, sociais, políticos, económicos, e eu também tenho a oportunidade de testemunhar isso em Portugal com os contactos que mantemos com a comunidade chinesa”, reforçou, ao descer a escadaria das Ruínas de São Paulo.
Macau, onde se encontra pela primeira vez, o deputado do PSD disse ter constatado que os portugueses “estão plenamente integrados” e “são bem tratados pela comunidade local”: “isso é muito bom, quando dois povos podem interagir e manter esta relação de amizade só nos deve deixar orgulhosos.” Lusa