O artista contemporâneo Luo Qi e a sua obra não são estranhos em terras portuguesas. Nascido em 1960 na cidade de Hangzhou, na província de Zhejiang, vive entre a sua cidade natal, Lisboa e outra capital europeia, Milão.
Alumno da Academia de Artes Chinesa, e também tendo sido professor na mesma instituição, é o fundador do movimento artístico Caligrafismo, ou Shufazhuyi, originário na década de 1980. Juntamente com outros artistas chineses, Luo Qi liderou este grupo de pós-modernistas na tentativa de transformação da tradicional caligrafia chinesa numa expressão contemporânea, desafiando a sua estética e função semântica. Na sua manifestação, os caracteres chineses ganham um ritmo visual e uma expressão quase abstrata. Apesar da sua notoriedade internacional desde o princípio do século, o artista nunca abandonou a especificidade chinesa – e a caligrafia da sua língua materna – nas suas múltiplas obras em exposição no Museu do Louvre, na Galeria de Arte da Universidade de Yale e no Palácio Ducal em Veneza, entre outras instituições de renome.
Este verão, o Centro Científico e Cultural de Macau em Lisboa inaugurou a exposição “Bird’s Eye View”, curada pelo próprio Luo Qi. Reunindo 140 artistas de 50 países distintos, incluindo europeus, latino-americanos e asiáticos, a exposição funciona como um espaço de diálogo intercultural através da arte.
Cada artista parte inicialmente da especificidade do seu país: um símbolo cultural, retratos paisagísticos ou naturais, figuras solitárias ou expressões socioafetivas comuns na sua cultura figuram nas várias obras. Os artistas portugueses que figuram na exposição – Guilhermina Pereira, Margarida Lourenço, Oxana Shimanchuk, António Canau, José António Stréna e Sérgio d’Azeredo – exemplificam a execução deste debate artístico, contribuindo, na sua particularidade, para a conversa intercultural sobre temas como trauma e memória, o mundo interior e exterior, a modernidade e tecnologia, e a guerra, nas suas dimensões individuais e coletivas. No prefácio da exibição, Luo Qi discursa sobre as contribuições dos artistas presentes que ressoam tanto a nível histórico como futurístico umas com as outras, e na importância da arte como componente essencial na criação de sentido existencial e social.
Outra artista chinesa que figura na exibição é Tian Luo, conhecida pela sua arte de recortes de tecido. Na obra Crucian Carp, a artista toma o símbolo chinês da carpa cruciana - consumida durante o Ano Novo e simbolizando prosperidade e boa sorte - e cria um retalho de várias texturas das cores do rio e da areia, onde a silhueta da carpa é evidenciada em bordados elaborados sobre o tecido.
O próprio curador exibe uma das suas obras, denominada New Poetry-3, onde num pedaço de tecido verde são estampadas figuras geométricas vagamente abstratas, que lembram outras obras suas que reinventam os primeiros pictogramas e ideogramas, precursores dos caracteres chineses, presentes nos ossos oraculares. A dimensão do passado e presente tão bem representada na exposição é também discutida pela artista Guilhermina Pereira, coordenadora e curadora do departamento de arte da AveiroArte, relativamente à interação entre artistas portugueses e chineses. Afirma que a relação histórica entre os dois países é explorada através de exposições, residências artísticas e projetos interculturais, onde temas como a identidade, memória colonial, globalização e hibridismo cultural são comumente abordados.
Nas suas palavras, a “interação entre Portugal e a China não é apenas histórica, mas também simbólica: representa um encontro entre duas maneiras de ver o mundo, que através dos séculos tem gerado novas linguagens visuais e diversas formas de expressão”. Assim, o diálogo intercultural presente nesta particular exposição é meramente um exemplo da interação constante a variada entre os dois países e os seus povos, português e chinês, numa relação centenária cultural, artística, linguística, social, económica e diplomática que não tem data para terminar.
Mariana Coelho