A nova parceria visa transformar Sagunto em um polo europeu de produção de células unificadas à base de fosfato de ferro-lítio (LFP). A primeira fase da fábrica está agora planejada para ter uma capacidade anual de até 30 GWh, 50% acima dos 20 GWh inicialmente previstos.
Madri, 4 out (Xinhua) -- A Espanha fabrica mais de 2 milhões de veículos por ano, sendo a segunda maior produtora de veículos da Europa, mas muitas decisões que moldam sua indústria automotiva são tomadas no exterior. Com a Volkswagen considerando a possível descontinuação de sua marca espanhola SEAT após 2030, uma nova parceria de baterias com a chinesa Gotion High-Tech destaca os esforços da Espanha para garantir seu lugar na cadeia de valor de veículos elétricos.
O Grupo Volkswagen, sua divisão de baterias PowerCo e a Gotion anunciaram em 28 de setembro que a Gotion investirá cerca de 1,1 bilhão de euros (1,29 bilhão de dólares americanos) para assumir uma participação de 49% na fábrica de células de bateria da PowerCo em Sagunto, no leste da Espanha. A PowerCo manterá uma participação de 51%; o empreendimento será gerido em conjunto, com previsão de início das operações em 2027.
José Díez, segundo vice-presidente do governo regional de Valência, disse que a parceria combinará "experiência industrial e conhecimento tecnológico" para tornar o projeto mais competitivo.
UMA POTÊNCIA COM CONTROLE LIMITADO
A Espanha possui um vasto ecossistema de fabricação automotiva que abrange fábricas de montagem, fabricantes de componentes e uma rede de fornecedores. Segundo o ICEX, a agência estatal espanhola de exportação e investimentos, nove grupos multinacionais operam 18 fábricas de montagem de veículos e de produção de componentes no país. O setor automotivo como um todo responde por cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e por 16% das exportações de mercadorias.
No entanto, grande parte dessa força industrial está concentrada em grupos multinacionais, deixando a Espanha exposta a decisões de investimento e produção tomadas no exterior.
A incerteza em torno da SEAT colocou essa vulnerabilidade em evidência. Em setembro, a Volkswagen disse que normas mais rígidas de emissão de CO2, os custos de eletrificação e os investimentos necessários para uma nova geração de modelos elétricos estavam tornando cada vez mais difícil realizar novos investimentos na marca. As opções da Volkswagen para o período pós-2030 incluem uma descontinuação gradual.
O anúncio gerou preocupações na Espanha. O jornal espanhol El País noticiou que o impacto econômico direto e indireto da SEAT é estimado em cerca de 4% do PIB da Catalunha e 3% do emprego na região.
Matías Carnero, presidente do comitê de empresa da SEAT e atualmente membro do conselho de supervisão da Volkswagen, alertou contra a possibilidade de a SEAT se tornar "uma mera fábrica de montagem". Ele declarou ao jornal catalão La Vanguardia que a SEAT ainda mantém atividades que abrangem design, produção e vendas. "A cadeia de valor como um todo que importa", disse ele.
POR QUE A TECNOLOGIA CHINESA É IMPORTANTE
A eletrificação está mudando os fatores que conferem vantagem competitiva às fabricantes de automóveis.
"Não se trata mais apenas de quem fabrica melhor, mas de quem controla as baterias, o software, os custos e a velocidade da inovação", disse Xavier Ferré, sócio responsável pelo setor automotivo e de transportes da EY Espanha, ao veículo de imprensa local La Vanguardia.
As baterias ilustram essa mudança. Segundo a Volkswagen, a Europa ainda carece de capacidade significativa de produção em escala industrial de baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP), uma tecnologia cada vez mais utilizada em veículos elétricos de baixo custo voltados ao mercado de massa. A Gotion traz experiência consolidada em tecnologia LFP e na fabricação em larga escala.
A nova parceria visa transformar Sagunto em um polo europeu de produção de células unificadas à base de LFP. A primeira fase da fábrica prevê agora uma capacidade anual de até 30 GWh, 50% acima dos 20 GWh inicialmente planejados.
As células são destinadas a abastecer a rede de produção de veículos elétricos do Grupo Volkswagen na Espanha, incluindo modelos elétricos compactos montados na fábrica da SEAT em Martorell, na Catalunha, e na unidade da Volkswagen em Navarra.
Outro grande projeto ganha forma em Saragoça, onde a Stellantis e a chinesa CATL estão investindo até 4,1 bilhões de euros (4,62 bilhões de dólares) em uma joint venture com participação de 50% para cada parte para construir uma fábrica de baterias LFP, com capacidade de até 50 GWh. A construção começou em 2025, e o início da produção está previsto para o final de 2026.
Esses projetos podem ajudar a Espanha a consolidar a fabricação de baterias juntamente com a montagem de veículos, fortalecendo sua posição à medida que a produção migra para modelos elétricos.
DA CONCORRÊNCIA À COOPERAÇÃO INDUSTRIAL
As parcerias da Espanha com empresas chinesas vão além das baterias. A Chery firmou parceria com a marca espanhola Ebro para retomar a produção na antiga fábrica da Nissan em Barcelona. A Ford e a Geely concordaram em formar uma joint venture envolvendo a fábrica de Almussafes, em Valência, pendente de aprovação regulatória. A Stellantis também está aprofundando a cooperação industrial com a Leapmotor, com produção planejada em Saragoça.
Essas alianças oferecem meios de manter fábricas e redes de fornecedores em atividade, ao mesmo tempo em que atraem novas tecnologias e investimentos.
O investimento em baterias está impulsionando a localização de etapas anteriores da cadeia produtiva. Outro projeto da Gotion em Valladolid inclui a produção de cátodos e a reciclagem avançada de baterias, agregando atividades que vão além da simples montagem de veículos. Quando o projeto foi anunciado, em julho, o governo espanhol o descreveu como uma "oportunidade histórica" para fortalecer a base industrial de veículos elétricos do país, com a previsão de criação de milhares de empregos.
Josep Maria Vall, presidente do Cluster da Indústria Automotiva da Catalunha (CIAC), disse que a tradição industrial da Espanha e a experiência de seus fabricantes de componentes conferem ao país a capacidade de integrar fabricantes chineses ao seu ecossistema industrial. O gerente do CIAC, Josep Nadal, disse que maiores investimentos e alianças industriais poderiam ajudar a Europa a "reter a cadeia de valor".
Pablo Sanz, professor da Universidade Nacional de Educação a Distância da Espanha, disse à Xinhua que as marcas chinesas estão pressionando as empresas europeias a melhorar a qualidade, acelerar a inovação e aumentar a eficiência. "A Espanha e a Europa precisam das marcas chinesas para acelerar a inovação", disse ele.
Jaume Roura, presidente da Fecavem, associação de concessionárias de veículos da Catalunha, disse à Xinhua que a cooperação deve trazer benefícios para ambas as partes. "Devemos garantir que todos se beneficiem e, acima de tudo, que a indústria e os empregos sejam preservados", disse ele.